Muitos de nós recordamos os passeios pelas terras de São Miguel e os encontros com um “Leão”, um “Lobo” ou até um “Dragão”. Não me refiro, naturalmente, aos animais em concreto nem à figura mitológica, mas ao nosso Cão de Fila de São Miguel.
Animal de trabalho e de guarda, de elevada obstinação e personalidade combativa, o Cão de Fila acompanhava lavradores, guardava pastagens e protegia manadas. O seu instinto territorial fazia parte da sua função.
Outra coisa bem diferente é transformar a política numa sucessão de rosnadelas.
Quando a expressão “cão de fila” passa para a linguagem política, fica quase sempre apenas a ideia do ladrar alto, da agressividade e do ataque. Perde-se a nobreza do animal e fica a versão mais visceral, corrosiva e por vezes irracional do confronto.
E é para aí que parece caminhar parte do discurso e do comentário político, uma ferocidade que transforma uma simples diferença de opinião numa ameaça moral.
Para alguns, basta uma opinião diferente, ou até apenas uma posição moderada, para logo se descobrir ali uma ameaça, uma traição ou uma conspiração. Olham para uma pessoa ou para um grupo e descobrem, de imediato, um inimigo da civilização, um corrupto, um saudosista ou um representante obscuro do sistema.
Falo, naturalmente, a partir do meu lugar, e não sou isento de responsabilidades. Por vezes, também consigo cair neste lado animal menos nobre. Mesmo sendo institucionalista e acreditando na construção de consensos e pontes num espírito de boa-fé.
Acredito nas instituições, nos partidos, nos órgãos próprios e na responsabilidade de quem assume um caminho coletivo.
Umas vezes ganha-se, outras perde-se, mas, em ambos os casos, deve assumir-se o resultado sem epopeias nem vitimizações.
Talvez por isso me incomodem tanto as tendências extremistas ou messiânicas.
Porque, quando a política passa a ser descrita como confronto permanente, o adversário deixa rapidamente de ser adversário e passa a ser inimigo. O debate deixa de ser confronto democrático e passa a ser uma disputa moral. A divergência deixa de ser normal e passa a ser traição.
Vê-se isto quando uma crítica legítima é apresentada como ataque pessoal, ou quando a moderação passa a ser confundida com cobardia. Aos poucos, deixa de se discutir o mérito das ideias e passa-se a discutir a pureza de quem as defende.
O curioso é que quem mais utiliza este tipo de linguagem vive, muitas vezes, numa permanente lógica de cerco. Está sempre rodeado de adversários, conspiradores, traidores, infiltrados, elites, sistemas ou forças ocultas, todos empenhados em persegui-lo.
É uma visão do mundo particularmente cansativa.
No fundo, é deturpar o instinto territorial do nobre animal e transformá-lo numa lógica política de suspeição permanente. Passa a ser o “nós” puro e virtuoso contra o “eles” corrupto e perigoso. Os patriotas contra os traidores. Os corajosos contra os cobardes ou vendidos. Os autênticos contra todos os outros.
E isto, vindo muitas vezes de quem se apresenta como a grande novidade política, tem a sua ironia. Afinal, não há nada de especialmente novo em transformar a democracia num julgamento moral permanente, onde só alguns se julgam puros, corajosos e donos da razão.
A democracia já conheceu demasiadas vezes esta tentação.
Começa-se por dizer que se quer devolver a voz ao povo. Depois escolhe-se qual povo merece ser ouvido. De seguida, todos os que discordam passam a ser suspeitos. Primeiro são adversários. Depois são obstáculos. Mais tarde são inimigos.
E, quando se chega aí, já não estamos perante política no seu sentido mais nobre. Estamos perante uma forma de cruzada permanente, onde o objetivo deixa de ser convencer e passa a ser derrotar, humilhar ou excluir.
O problema é que esta lógica produz um efeito curioso.
Quanto mais inimigos alguém inventa, mais sozinho acaba por ficar.
Porque chega um momento em que todos os outros passam a fazer parte da conspiração. Os antigos aliados tornam-se suspeitos. Os apoiantes insuficientemente fervorosos tornam-se traidores. Os moderados tornam-se cobardes. Os restantes não contam.
E o círculo vai encolhendo.
Acabam orgulhosamente sós, como o cão que nada tem para proteger, mas convencidos de que a solidão é prova de coragem, quando muitas vezes é apenas o resultado de terem transformado todos os outros em suspeitos.
Porque a democracia também se constrói coletivamente, com regras, compromissos e responsabilidade.
E os cidadãos não precisam de cruzadas permanentes.
Precisam de firmeza, sim. De fiscalização, naturalmente. Mas precisam, acima de tudo, de quem saiba discordar sem transformar todos os outros em inimigos.